História da Vinícola Antunes

Nos tempos da Cantina Antunes

A coluna relembrando a boate Quinta Estação também traz à tona as memórias da antiga Vinícola Luiz Antunes e de seu fundador, Armando Luiz Antunes.

Fundada em 1865, em Porto Alegre, a Cantina Antunes chegou a Caxias por volta de 1910, mas teve seu apogeu verificado entre as décadas de 1930 e 1950. Filho do português Luiz Antunes – e aconselhado por ele –, o empresário Armando Luiz Antunes mudou-se para a cidade disposto a abrir uma filial da empresa em 1913 – essa, aliás, é a provável data da construção do pórtico derrubado em novembro de 2012 e reconstruído meses depois.

Químico prático, com especialização em vitivinicultura, Antunes buscava impulsionar o cultivo de uvas e o comércio de vinhos. Após transformar Caxias na principal fornecedora da bebida na região, o empresário transferiu-se definitivamente para a Serra.

Junto ao complexo do bairro Panazzolo, Armando construiu um amplo casarão de madeira para morar com a esposa, Jandira Neves, e as quatro filhas: Noêmia, as gêmeas Ilka e Ilza e Nilza. Posteriormente, foi erguida a casa de alvenaria existente até hoje. Ambas integravam a famosa Quinta São Luiz.

Em novembro de 1996, Caxias viu surgir uma das casas noturnas que mais marcaram época no entretenimento da cidade. A história do Quinta Estação, porém, está intrinsecamente ligada à ocupação da antiga chácara Quinta São Luiz, de propriedade da família Antunes.

Erguido no final dos anos 1940 nos fundos do complexo de prédios da Vinícola de Luiz Antunes & Cia, o casarão foi reformado para abrigar um mix de danceteria, restaurante e, a partir de 1998, uma micro cervejaria.

Na imagem acima, o antigo (e destruído) pórtico da Quinta São Luiz e a residência da família em meados dos anos 1950, quando o local ainda era praticamente uma floresta em meio à cidade. A estrutura em basalto defronte à chácara seguia a mesma arquitetura do pórtico da vinícola – derrubado acidentalmente por um guincho em novembro de 2012 e reconstruído meses depois, na Rua Luiz Antunes.

Na imprensa

Repaginado pelo arquiteto José Afonso Galvão e sob o comando do empresário Clademir Perini (in memoriam), o local acompanhava a “onda” de espaços de entretenimento com amplos jardins e ambientes ao ar livre que pipocavam pela cidade.

Reportagem do Pioneiro de 4 de setembro de 1996 destacava a novidade:

O mural de azulejos

Publicado originalmente na página Caxias do Sul – Fotos Antigas, do Facebook, o painel de azulejos ao lado decorava a varanda do casarão. Assinado por um desconhecido J. Felizardo reproduzia a fachada trazendo a seguinte mensagem:

“Quem nesta casa chegar trazendo a sua amizade, quando partir vai deixar uma sentida saudade”.

Com as reformas da casa – ou antes, disso até –, o mural desapareceu. Deixando saudade…

“O empreendimento será pilotado por Jane De Lazzer Perini, que faz sua estréia no business noturno em outubro. Jane vai montar seu pub, ainda sem nome definido, na Quinta São Luiz, uma propriedade com mais de 60 anos, pertencente à família Antunes e localizada próximo ao Fórum. Somente na residência, são 300 metros quadrados de área, distribuídos em dois pisos. O detalhe fica por conta do imenso jardim, emprestando um ar romântico à casa”.

Falando em romantismo – e saudosismo -, quem não lembra dos shows da Lucille Band e das obrigatórias “quintas do Quinta”?

Atualmente, o imóvel abriga um buffet executivo ao meio-dia e o Quinta Eventos. Clique na imagem para ampliar e ler o texto original de 1996.

Memória: escola da Vinícola Luiz Antunes em 1943

Surgido para alfabetizar filhos de funcionários, Colégio São Luis passou a atender crianças de diversos bairros próximos

Instalada em Caxias do Sul em 1910, a Cantina Antunes mesclou-se ao cotidiano de milhares de famílias até meados dos anos 1980, quando as atividades foram encerradas. Além do trabalho em si, a antiga firma Luiz Antunes & Cia mantinha ainda uma série de serviços de assistência e recreação, visando manter os funcionários integrados à vinícola.

Um deles era o Colégio São Luis, surgido nos anos 1930. Conforme informações contidas no antigo boletim Mirante – Cantina Antunes, editado pela Secretaria Municipal da Cultura em 2003, o espaço foi criado com o objetivo de atender aos filhos de funcionários, mas aos poucos, passou a assistir outras crianças do antigo bairro Lusitano e das redondezas – as aulas eram ministradas em um enorme cômodo, também usado como salão de festas, conforme vemos nas imagens acima e abaixo, de 1943.

Depoimento do ex-funcionário Domingos Bosa (in memoriam), prestado à professora Cleodes Piazza e à arquiteta Sandra Barella em 1985 e reproduzido na publicação, destacava alguns aspectos do espaço:

\\\\\\\"A escola terminou um pouco antes, porque a gurizada começou a quebrar vidro, começou a brigar. Foram muitas questões, então a firma resolveu tirar a escola, porque não era só para os operários. Ela (a cantina) dava escola para toda essa zona aqui. Não tinha outra escola\\\\\\\"

 

O prédio

Conforme documentos e fotos preservados no Arquivo Histórico Municipal, o salão das aulas do Colégio São Luis localizava-se no último prédio à esquerda, pelo acesso junto ao pórtico, onde hoje se situa o Fórum. Seria a \\\\\\\"esquina\\\\\\\" defronte a atual Casa das Etnias (desenho abaixo), um dos poucos prédios originais do complexo que foram mantidos, juntamente com o Centro de Cultura Henrique Ordovás Filho.

 

Em tempos em que se discute o futuro da Maesa, incluindo o tombamento pelo Patrimônio Histórico e as propostas de repasse pelo Estado, a coluna recorda de outro complexo que, nos anos 1980, virou um símbolo do abandono e da inércia pública para a preservação: a antiga Cantina Antunes.

Mesmo com uma lei de 1984 determinando que o espaço arquitetônico fosse transformado em uma área de preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Caxias – e de laudos técnicos apontarem para a urgência dos trabalhos de recuperação -, o que se viu nos anos 1980 e boa parte dos 1990 foi uma crescente deterioração do espaço.

 

São do caótico período compreendido entre 1982 e 1988 – ano em que União repassou o complexo ao município – os registros desse post. Como a prefeitura optou por não investir em imóveis que “não lhe pertenciam”, a cidade acompanhou durante, mas de uma década um melancólico processo de degradação – e desrespeito por sua história.

O complexo da cantina visto do alto em 1988. Repare na enorme área verde ainda intacta nos fundos do terreno, hoje dominada por prédios. Ruínas à esquerda dariam lugar ao Fórum. Foto: Geraldo André Susin, divulgação

 

Em tempos em que se discute o futuro da Maesa, incluindo o tombamento pelo Patrimônio Histórico e as propostas de repasse pelo Estado, a coluna recorda de outro complexo que, nos anos 1980, virou um símbolo do abandono e da inércia pública para a preservação: a antiga Cantina Antunes.

Apogeu e queda de um império

Fundada em 1865, em Porto Alegre, a Cantina Antunes chegou a Caxias por volta de 1910, mas teve seu apogeu verificado entre as décadas de 1930 e 1950. Filho do português Luiz Antunes –  e aconselhado por ele -, Armando Luiz Antunes mudou-se para a cidade em 1913 (provável data da construção do pórtico) para abrir uma filial da empresa. Químico prático, com especialização em vitivinicultura, Antunes buscava impulsionar o cultivo de uvas e o comércio de vinhos.

Após transformar Caxias na principal fornecedora da bebida na região, o empresário transferiu-se definitivamente para a Serra. Junto ao complexo do bairro Panazzolo, Armando construiu um amplo casarão para morar com a esposa, Jandira Neves, e as quatro filhas: Noêmia, as gêmeas Ilka e Ilza (que veio a falecer aos dois anos) e Nilza.

 

Nos tempos áureos, quando fornecia vinhos para vários estados brasileiros, a vinícola chegou a somar mais de 100 mil parreirais de diversas espécies de uva e empregar centenas de trabalhadores.

O início do fim

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